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Ciência

Muito além do CBD: por que precisamos falar sobre a maconha?

Planta é uma das mais pesquisadas pela ciência. Folhas, caule, flores e sementes podem ser usados na industrial farmacêutica e até na produção de tecidos.

Publicado em 18/08/2022 às 14:25
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Canabis é usada há mais de 4 mil anos. (Foto: Reprodução/Google)

A maconha faz parte do gênero botânico Cannabis e inclui apenas uma espécie, a Cannabis sativa, considerada umas das plantas medicinais mais antigas do mundo. Seu uso medicinal pelos chineses data de mais de 4 mil anos e pode ser ainda mais antigo. No Brasil, a maconha foi introduzida no ano de 1.549, pelos escravos vindos da África, ficando conhecida como fumo de Angola. Após quase 5 séculos, ela foi criminalizada pela Lei de nº 891, de 25 de novembro de 1938. Antes disso, em 1830, a cidade do Rio de Janeiro proibiu o seu uso em um ato muito mais atrelado às questões racistas, do que de fato aos problemas de saúde pública e combate às drogas.

A ciência já descreveu cerca de 750 compostos químicos de Cannabis, como terpenos, flavonoides e canabinoides. Os terpenos contêm os óleos essenciais e são os responsáveis pelo aroma, sendo o limoneno, β-cariofileno os principais constituintes, e que tem mostrado bons resultados no combate de células cancerígenas, podendo ser usados como quiomioterápicos.

Compostos canabinoides não são exclusivos da canabis, sendo encontrados em outras plantas, como Rhododendron (gênero da azaleia) e Radula (gênero de hepática). Mais de 120 canabinoides já foram isolados da maconha, como canabigerol (CBG), canabicromeno (CBC), canabidiol (CBD), tetrahidrocanabinol (THC), canabiciclol (CBL), canabielsoína (CBE), canabinol (CBN), canabinodiol (CBND), canabitriol (CBT), e outros. Nosso cérebro contém receptores para esses compostos, localizados no sistema nervoso, conhecido como sistema endocanabinoide. Quando atingem o sistema nervoso, esses receptores captam e utilizam os canabinoides para modular o humor, apetite, memória, dor e imunidade.

Efeitos colaterais do THC

O THC é a substância psicoativa da maconha e pode causar efeitos colaterais, como tosse, enjoo, dificuldade de raciocínio, aumento da frequência cardíaca, euforia e perda de peso. Em pessoas ainda em formação cognitiva e com distúrbios psicológicos, o THC pode causar perda de memória, esquizofrenia, psicose e dependência. O uso do fumo também pode causar problemas pulmonares.

As pesquisas na área de saúde têm focado no uso do CBD, por não ser psicoativo e apresentar resultados satisfatórios para doenças degenerativas cerebrais, epilepsia, dores crônicas como artrites, fibromialgia e enxaqueca, doença de Parkison, ansiedade, além de ser anti-inflamatório, antiasmático e antitumoral.

No Brasil, já existem 15 medicamentos autorizados pela ANVISA, que são a base de CBD e que contêm menos que 0,2% de THC na composição. O uso é restrito e deve ser feito por prescrição médica.

As sementes da maconha podem ser consumidas sem preocupação e é uma ótima fonte nutricional de proteínas, carboidratos e ácidos graxos, ajudando no controle do colesterol, além de ter vitaminas A, E e do complexo B. O óleo extraído das sementes, pode ser usado para cozinhar, na produção de cosméticos ou ainda como biocombustível, sendo uma alternativa de energia limpa, ao contrário do petróleo.

A fibra contém alta concentração de celulose, podendo ser utilizada na produção de papel e na indústria de tecidos e calçados, por produzir fios muito resistentes. Ela também pode substituir o plástico, produzir materiais absorventes e concreto para construção. O plantio da maconha também ajuda na recuperação de solos, uma vez que a planta atua como biorremediadora e remove metais pesados do solo.

As aplicações da maconha vão muito além do uso recreativo ou medicinal, sendo importante na alimentação, indústria têxtil, construção civil, indústria de papel e celulose e de plásticos, além de ser importantes para a conservação ambiental.

A ciência tem estudado cada vez mais as propriedades e usos possíveis da maconha e os resultados são muito promissores. Temos nas mãos uma planta que tem inúmeras possibilidades de usos e que pode trazer diversos benefícios para saúde, nutrição, meio ambiente e economia.

Fontes

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https://www.cell.com/action/showPdf?pii=S1360-1385%2817%2930177-2

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Sobre a autora

Ana Lívia Negrão Leite Ribeiro é guaxupeana, bacharel e licenciada em Ciências Biológicas, com mestrado e doutorado em Biodiversidade Vegetal e Meio Ambiente pelo Instituto de Botânica de São Paulo. Possui formação complementar em fitoterapia e coordena o projeto de escola de botânica Cabocla Ciência. Atuou como professora universitária na Universidade Estadual do Ceará (UECE) e Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (UNILAB).

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